• Vegano Periférico

Será que mais produtos é o caminho? O Veganismo Popular não é o mesmo que o Veganismo de Mercado

Atualizado: 19 de jan. de 2021


O veganismo liberal, conhecido também como estratégico ou de mercado, é uma forma de propagar o veganismo a partir de uma visão baseada em consumo, sendo na maioria das vezes muito superficial e sem recortes. Há uma crença por parte de seus adeptos de que o sistema capitalista, ao passar do tempo, vai se tornar mais ético, consciente e justo. É uma crença de que os pilares do capitalismo irão se alterar, quando na verdade esse sistema se fortalece cada vez mais, tornando absolutamente tudo em mercadoria e cooptando todas formas de resistência e quem poderia se opor a isso, começa a financiá-lo.


Essa forma de propagar a causa está cada vez mais afastando o fim da exploração animal. Embora pareça uma boa ideia produtos ultraprocessados e industrializados veganos, principalmente para quem está começando, esses produtos além de serem muito caros e inacessíveis a maior parte da população, são direcionados a uma classe específica e também não é nada interessante dar dinheiro para grandes frigoríficos e megacorporações — pois a intenção dessas empresas nunca será o fim da exploração animal e, sim, o quanto elas poderão arrecadar com a parcela de pessoas que estão perdendo. A única coisa que importa é o acúmulo de capital, o lucro.


Quando empresas como a JBS, Seara, Sadia, McDonald's, Burger King, Unilever e Marfrig, por exemplo, lançam produtos ‘’à base de plantas’’ ou produtos sem nada de origem animal, o veganismo de mercado vê como uma vitória, e algumas ONGs que faturam milhões em negociações com essas megacorporações e frigoríficos vão ao delírio (literalmente). É um movimento em prol do capital, acreditando que não há outra forma de atuar pelo fim da exploração animal se não for jogando o jogo do capitalismo.


Megacapitalistas vão dominando tudo de forma muito sútil e transformando tudo em produto e consumo, transformando tudo em um grande negócio. O fim disso tudo é destrutivo. Não seria diferente quando o movimento pelos direitos dos animais começa a ganhar forças, a tomar forma e solidez, voz ativa e política. Infelizmente o veganismo liberal vai surfando a onda consumista, sendo cooptado por essa lógica perversa e entregando de bandeja toda a luta construída em prol dos animais aprisionados, explorados e mortos diariamente por essas megacorporações.


O veganismo liberal propaga a causa através da lógica consumista, acreditando que quanto mais produtos sem nada de origem animal tiver, magicamente as pessoas irão optar por essas opções e o mundo se tornará vegano. Na teoria é assim que funciona, mas na prática, isso não vai acontecer. Inclusive, notícias recentes mostraram que a maior empresa de carnes do mundo a JBS vai investir R$ 8 bilhões só no Brasil, a maior parte do valor será destinada à ampliação da produção de frango, suínos e processados e, além disso, a mesma empresa recentemente comprou o Frigorífico Marba, famoso por seus embutidos.


O veganismo precisa ser propagado a partir da conscientização, da educação, de forma sólida, contextualizada e como um posicionamento político. É preciso ter compreensão de que o especismo está impregnado e enraizado na sociedade e não são opções de consumo que farão isso mudar. Além disso, um movimento que tem como princípio mudar apenas alguns hábitos individuais será sempre tratado como uma onda, como um modismo, como algo superficial e passageiro.

Apesar de haver uma preocupação com a exploração animal e o sofrimento de seres inocentes, o veganismo de mercado é uma causa voltada mais para gostos pessoais e consumos individuais. É um movimento que faz a gente acreditar que para que possamos nos tornar veganos é preciso ter muitas opções de queijos vegetais, mortadela vegetal, carne à base de plantas, que as prateleiras do supermercado precisam estar repletas de ultraprocessados sem nada de origem animal. Tratando a causa apenas como um viés de consumo, tiram toda a nossa autonomia e nos colocam reféns dessa lógica, fazendo a gente acreditar que somos dependentes da indústria alimentícia e do agronegócio e que sem elas nada será possível fazer. Não vê possibilidades em construir um movimento tendo como base a educação, o desenvolvimento da consciência antiespecista, um movimento que esteja visando a agricultura familiar, a produção agroecológica de alimentos que não vão contribuir com a má saúde das pessoas mais pobres (nutricídio) e nem com a destruição ambiental.


Infelizmente, esse movimento é o mais disseminado na mídia comercial, um movimento que tem uma aparência gourmetizada, vaidosa, estética e pouco crítica, elitizando ainda mais essa causa tão importante.

Enquanto não superarmos o capital, enquanto tivermos colonizados por essa mentalidade capitalista e especista, pouco avançaremos realmente para uma sociedade que pensa de forma justa em relação aos animais. Tratar o veganismo como um life style, como apenas uma opção de consumo individual e não como uma postura política frente a toda crueldade e objetificação de corpos animais é, a nosso ver, um grande equívoco.


Muita gente que está apoiando o veganismo liberal nem sabe o que está acontecendo, não faz nem ideia que existem vertentes do veganismo no Brasil. Uma boa parte só fazer algo pelo movimento e se sentir parte, seja em ONGs, empresas, etc., compra produtos com selos veganos. frequentam eventos caros, seguem o veganismo de mercado de forma genuína com a intenção de agregar na causa, sem pensar no que tem por trás e, muito provavelmente, lendo, pesquisando e refletindo um pouco percebe que não é o melhor caminho. Mas tem uma parte bem elitista que vive numa bolha gigante, de uma classe média que nunca teve que se preocupar com política — pois nunca precisou de políticas públicas; apesar de sabermos que existem exceções, muitos nem sabem o que é isso. E algo que é muito óbvio é: cada um propaga aquilo que aprende, que vê e que vive. Não estamos culpando ninguém, estamos apenas fazendo uma crítica, pois essa forma de propagação do movimento é a que mais afasta as pessoas dele. Porém, é claro, existem aqueles que se beneficiam com essa propagação voltada pro capital, afinal, tem muita gente que está ganhando uma grana com a junção do veganismo com o capitalismo verde. Mas cabe a cada um, cada grupo, refletir e contemplar a autocrítica, pois só assim caminharemos para uma causa, que de fato, tocará na raiz do problema e não ficará na superficialidade.


Se não tocarmos na base da estrutura, seremos tratados apenas como um produto.


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