• Vegano Periférico

Insegurança alimentar e o veganismo popular


Comemorar o aumento no preço da carne e trazer o veganismo como pauta dentro dessas circunstâncias é uma atitude totalmente irrefletida e de total falta de compreensão da realidade, é ignorar a insegurança alimentar que atinge cerca de 116 milhões de brasileiros e a fome que já atinge quase 20 milhões de brasileiros e brasileiras.



É necessário propagar o veganismo compreendendo a questão cultural, a questão social, a gravíssima falta de informação e o simbolismo do consumo de animais na nossa sociedade. O consumo de animais é estimulado e induzido pela lógica econômica que é, em sua maioria, baseada na exploração animal. A nossa cultura é altamente dependente de pedaços de animais mortos e seus derivados. Quantas vezes já não escutamos: ‘’se não tem carne, não tem comida.’’ Consumir animais é o significado de ter o que comer e de estar bem socialmente. Pra maior parte da população a carne é um símbolo. E uma coisa é fato, se a quebrada não consumir pedaços ‘’sofisticados’’ de animais, vai ter sempre uma salsicha, um zóião (vulgo ovo) ou pedaços de galinha no prato, pois o consumo de animais tá enraizado profundamente, e não é simples mudar isso. Por mais que pareça.



Essa forma de propagar o fim da exploração animal é excludente e elitizada. O povo não vai se conscientizar da exploração animal por conta do preço da carne. O que faz com que as pessoas comecem a pensar, de fato, sobre as consequências do consumo de animais é a consciência, a informação e a possibilidade de escolha. Sabemos que é possível ser vegano sendo pobre, que economicamente falando é muito mais viável e que a população brasileira é totalmente capaz de compreender e praticar o veganismo. Mas muita gente está passando fome, sem escolhas e não tem essa informação, e negligenciar essa questão, mencionando apenas o preço da carne é uma forma de fechar os olhos pra realidade.



E é justamente por tudo isso, que o veganismo popular fala tanto sobre autonomia alimentar, mudanças sistêmicas e conexões com outras lutas por direitos. Pois tudo está interligado de alguma forma. E falar sobre veganismo, sobre consumo de animais e sobre comida é falar sobre política, sobre sistema e mudanças estruturais.