• Vegano Periférico

Entre eventos, mercados e mercadinhos a informação se torna mais importante do que o consumo

Durante esse ano todo, cada mercadinho, mercantil ou supermercado que eu entrava, eu procurava produtos sem testes em animais

e alimentos mais presentes no nosso dia a dia, por pura curiosidade e, por incrível que pareça, seja numa cidade bem pequena do interior de São Paulo, seja na Zona Leste em São Paulo ou na região do Campo Grande em Campinas, e até aqui em Juazeiro do Norte, na região do Cariri, interior do Ceará, sempre encontrei e encontro produtos não testados em animais e alimentos sem nada de origem animal, inclusive, mais barato. Um exemplo, aqui no Juazeiro já encontramos pasta de dente sem testes em animais e até manteiga apta para veganas e veganos em diversos lugares.


Mas aqui não vamos falar sobre variedade e acessibilidade, o assunto é sobre como estamos atuando. Porque, muitas vezes focamos o discurso e até as ações apenas na quantidade de produtos disponíveis nas prateleiras dos supermercados, focamos apenas no consumo e no acesso aos produtos veganos, esquecendo assim, o trabalho de base, a comunicação popular, palestras, rodas de conversa, distribuição de material informativo com uma linguagem acessível, esquecemos muitas vezes de passar uma informação relevante e caímos na falha de indicar um produto para substituir, entre outras coisas muito mais importantes do que uma opção ''vegan'' no supermercado. Podemos, claro, indicar produtos, dar dicas de opções vegetais, não tem nenhum problema, a questão é que tornamos os produtos como fim e não como meio da causa. Parece que estamos mais preocupadas e preocupados com a estética do movimento e menos com a capacidade de transformação política e social que ele carrega, com exceções, sempre. Um exemplo prático são feiras veganas que levam milhares de pessoas a conhecer o veganismo, porém, na maioria das vezes o foco é exclusivamente no consumo não na informação. Quem frequenta esses espaços e não tem condições financeiras para consumir algo e quer aprender alguma coisa sobre os direitos dos animais, qual a relação da pobreza e da miséria com a pecuária e megaempresas, a relação das doenças modernas com o alto consumo de alimentos de origem animal, o que a indústria da carne está fazendo através da publicidade e o que fez durante anos, etc., e não tem isso, a pessoa fica deslocada, perdida e se sente excluída pela estrutura, foi o que aconteceu com a gente em vários lugares e isso esvazia a causa, a torna passageira e tira o conteúdo político que ela tem.


Como já bem colocamos, falar sobre acessibilidade, variedade e ter acesso aos alimentos sem nada de origem animal e produtos não testados em animais é muito importante e necessário. Porém, não podemos gastar todas as nossas energias com isso e ter apenas essa estratégia como fim.


A grande questão é a informação e a capacidade de assimilar informações.


Segundo uma pesquisa do IBOPE realizada em abril de 2018, hoje no Brasil, 14% da população se declara vegetariana, ao todo 29 milhões, e isso não tem a ver com a quantidade de produtos veganos que temos nos supermercados, mas tem a ver com a quantidade de informações que conseguimos hoje através da internet, seja sobre o abate cruel de animais, doenças graves ou destruição ambiental que estão diretamente relacionadas a produção e o consumo de carne, leite e ovos.


A informação precisa estar no centro das nossas ações, sempre. Porque, de nada adianta as pessoas terem acesso aos alimentos, aos produtos, as feiras e aos eventos se elas não assimilam o quão cruel e desnecessário é, o consumo e o uso de animais em qualquer esfera da vida, se não tiver instrução e motivação, se elas não fazem a mínima ideia do que está acontecendo ao seu redor, os produtos ficaram apenas num nicho, como qualquer outra moda. Na prática, é só mais um produto na prateleira que tem como objetivo gerar lucro aos responsáveis pelo colapso socioambiental.