• Vegano Periférico

Veganismo não é dieta

Atualizado: 16 de set. de 2021

Veganismo não é dieta, contudo, falar sobre alimentação de forma política, contextualizada e com fundamento é de extrema importância. Não abordando com a ideia de dieta para corpos perfeitos, padrões inatingíveis ou estilos de vida de pessoas "evoluídas". Mas sim, sobre uma forma de se nutrir correta e naturalmente, com uma alimentação que, além de não submeter animais a um regime de exploração industrial, não contribui com o nutricídio nas quebradas, não destrói a saúde do povo enriquecendo poucos e não contribui com a destruição ambiental. Dentro da sociedade do lucro, a nossa vida é reduzida a um mero jogo de negócio. Somos manipulados, condicionados e ficamos totalmente reféns desse sistema. Comemos alimentos ultraprocessados, produtos de origem animal, fomentando a cadeia de exploração e prejudicando a nossa saúde. Nos acostumamos com a chamada junk food, rica em química, gordura, sal e açúcar. Com essa forma de nos alimentarmos, nós estamos alimentando o bolso de pessoas que não estão nem aí para a população, pessoas que estão nos matando e enriquecendo com isso. As grandes indústrias têm um potencial de destruição gigantesco. Não é exagero afirmar que o nosso estômago está se tornando um lixão da indústria alimentícia. Estamos todos robotizados, viciados e dependentes.



No Brasil, a população está ficando cada vez mais doente devido ao que come, mas a classe mais afetada é, sem sombra de dúvida, a mais pobre, principalmente a população negra, com menos recursos e, consequentemente, com menos acesso à informação de qualidade. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013, do IBGE, a insegurança alimentar atinge mais a população negra, nordestina, rural e com pouco estudo. A insegurança alimentar é caracterizada pela restrição em qualidade e quantidade da alimentação, em casos extremos podendo chegar a fome. O Dr. Llaila O. Afrika, responsável por cunhar o termo nutricídio, diz que a população está submetida a um regime de escravização através do estômago, que essa é a nova forma de escravizar o povo, principalmente a população negra. O Afrika não tem relação com a visão de mundo antiespecista e nunca se posicionou como vegano, no entanto, sua abordagem em relação a alimentação é de fato, muito importante para alinharmos ao movimento político de luta pela libertação animal. Aliás, a nossa luta também diz respeito à libertação humana.


Imagem: Documentário What The Health


Segundo o portal de notícias UOL, uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em 2017, aponta que a diabetes mellitus tipo II atinge as mulheres negras 50% a mais do que as mulheres brancas. De acordo com o estudo do ELSA-Brasil, a hipertensão atinge 30,3% dos brasileiros brancos e 49,3% dos pretos. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes esses distúrbios, além do componente genético, estão diretamente ligados aos nossos hábitos, principalmente alimentares. Nós perdemos totalmente a nossa autonomia. Falando nisso, você sabe o que significa autonomia alimentar? Autonomia alimentar nada mais é do que a liberdade que temos de escolher de forma consciente e deliberada o que queremos comer, visando sempre a forma correta e que de fato irá nutrir o nosso corpo, e não deixando esse trabalho ser feito por publicidades que induzem o nosso inconsciente, fazendo com que desenvolvamos desejos e vontades e acabemos agindo de forma totalmente robótica e inconsciente, de acordo com o interesse do capital.


Recentemente, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) que é composta por Nestlé, Unilever, Bauducco e Danone, junto ao Ministério da Agricultura de Tereza Cristina, decidiram retirar do Guia Alimentar para a População Brasileira, os dados sobre ultraprocessados, embutidos e informações sobre o quão prejudicial é o consumo de produtos de origem animal. Por mais que não tenha passado, o que ficou é a intenção, que é assustadora. Nós, que lutamos pela libertação animal, não podemos deixar de falar sobre a importância propagar uma alimentação baseada em comida de verdade e não em subprodutos da indústria. Nós lutamos por uma mudança complexa no formato da sociedade, não buscando um formato homogêneo, mas uma forma de viver que não esteja relacionado com nenhum tipo de exploração. Não estamos falando de comida no sentido de dieta, mas sim num sentido amplo de tudo que está relacionado com o que comemos. É óbvio que o Guia Alimentar não é um guia antiespecista, longe disso, porém ele é extremamente importante enquanto política pública para que possamos ter uma base e um direcionamento em relação à saúde nutricional para a população.

Guia Alimentar Para a População Brasileira.


Aliás, é tudo é tão óbvio, nem precisaríamos de tantos dados, é só olhar a nossa volta. Seja em confraternização de família, restaurantes, eventos, bares, padarias, supermercados, tá escancarado o quanto nós estamos condicionados a uma forma de se alimentar que está nos matando pouco a pouco. Tipo, quando colamos num churrasco, por exemplo, o assunto gira em torno de dores, remédios e consultas. Estamos adoecendo, falando sobre doença e não percebemos, pois temos um marketing violento e criminoso da indústria alimentícia induzindo o inconsciente coletivo, não só para consumir produtos de origem animal, mas também ultraprocessados e embutidos de todo tipo. Nós estamos dentro de um contexto que é impossível falar sobre veganismo sem falar sobre a questão do nutricídio, não faz o menor sentido propagarmos uma causa voltada para consumos de industrializados, quando temos consciência e noção do que essas grandes indústria estão fazendo com nosso povo. Um estudo recente mostrou que a alimentação da população brasileira está cada vez pior, segundo os dados apresentados neste estudo, em torno de 21,5% da alimentação é baseada em alimentos ultraprocessados. Um relatório da OMS concluiu que consumir 50g de embutidos diariamente aumenta em 18% o risco de câncer colorretal. Essa quantidade equivale a cerca de 2 fatias de bacon, 2 fatias de presunto ou 1 salsicha por dia, por exemplo.

As carnes processadas, também conhecidas como embutidos, são bacon, salsicha, linguiça, presunto, mortadela, salame, carne de lata, peito de peru e blanquet de peru.


Além da saúde, a alimentação convencional, que é baseada praticamente em alimentos de origem animal contribui diretamente com os principais problemas ambientais e ecológicos. Como por exemplo, o aquecimento global, o desmatamento da Amazônia, as queimadas no Pantanal e o alto consumo de água no globo.


Foto: CenárioMT


Em relação ao aquecimento global, a pecuária é a principal atividade causadora desse problema, haja vista que o principal fator do aquecimento global é a alta produção de gás metano, gás de efeito estufa, que no entanto, é produzido pelos ruminantes. Gases de efeito estufa são substâncias gasosas que absorvem parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre. Segundo o Instituto de Política Agrícola e Comercial (IATP) e da GRAIN, as cinco maiores empresas de carne e laticínios do mundo juntas são responsáveis por mais poluentes na atmosfera do que as principais petrolíferas do planeta.



O Pantanal está sendo tomado pelas chamas há anos e a principal atividade causadora dessas queimadas é o desmatamento para a criação de pasto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o agronegócio é responsável por 80% do desmatamento na Amazônia. E esse desmatamento não diz respeito apenas às áreas de pastagem que são derrubadas ou queimadas, mas também à monocultura na produção de alimentos, como grãos de soja e milho, grãos esses que em sua maioria são destinados à alimentação de animais. Alguns estudos dizem que poderíamos alimentar 3.5 bilhões de pessoas se só comêssemos aquilo que usamos para alimentar os animais.


Foto: Frico Guimarães


Quando o assunto é água e pecuária, ficamos ainda mais assustados com as informações. Dados da Hoekstra, Mekonnen, PNAS, 2012 mostram que a produção de carne e laticínios é responsável por 27% do consumo de água doce no mundo. Para produzir 1 kg de bife, uma vaca precisa comer cerca de 25 kg de grãos, e nesse processo são utilizados em média 15.400 litros de água. Segundo Organização das Nações Unidas (ONU), cada pessoa necessita de 3,3 mil litros de água por mês (cerca de 110 litros de água por dia para atender às necessidades de consumo e higiene). Ou seja, para produzir 1 kg de carne é o equivalente a 4 meses usando água.





Horta comunitária, Campo Grande. Periferia de Campinas - SP

Todas essas questões aqui colocadas só reforçam o quanto precisamos repudiar governos retrógrados e antiambientalistas e alinhar não só o movimento pela libertação animal, mas também os movimentos sociais ao consumo de comida de verdade, a agroecologia, apoiar e incentivar a agricultura familiar, incentivar movimentos como o MST, que, aliás, é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina fazendo comércio com EUA, Grécia, Portugal, Espanha, Holanda, Argentina, Emirados Árabes, China, Haiti, Jamaica, Costa Rica, Itália e Peru. Precisamos apoiar projetos de Horta Urbana e olhar para a questão da comida de forma totalmente política. Claro que nós precisamos de políticas públicas, sabemos que a macropolítica é extremamente importante, haja vista que o Estado existe justamente para regulamentar, fiscalizar e controlar toda ação que coloque a sociedade em risco.


No entanto, se apenas jogarmos a responsa de mudança pra macropolítica, estaremos deixando a classe dominante muito mais à vontade, é necessário mudar de dentro pra fora, abandonar valores impostos e superficiais e atuar de forma conjunta e coerente, buscando tanto mudanças individuais quanto coletivas.


É de extrema importância mudarmos a forma que enxergamos e que nos relacionamos com o consumo, principalmente de origem animal, embutidos, industrializados, ultraprocessados e produtos inúteis. Pois, só podemos de fato, tonar a alimentação em um ato político apenas quando compreendermos a sua complexidade e o seu profundo impacto socioambiental.



Fontes: https://www.scielosp.org/article/rsp/2015.v49/38/pt/, FAO, OMS, Hoekstra, UNESCO-IHE, 2010, Water Footprint Network, Cassidy, West et al, IOP Science, 2013


Fonte foto homem e bois: https://noticiaalternativa.com.br/wp-content/uploads/2017/10/metano.jpg