• Vegano Periférico

É impressionante como toda semana algumas pessoas à nossa volta são diagnosticadas com alguma doença relacionada a péssima alimentação. E o pior é a forma como lidam com isso, agem como se fosse algo natural e inevitável, acreditam que a idade vai te trazer uma doença e não importa o que você faça você vai sofrer. Sabemos que muitas doenças têm origem genética e de fato são inevitáveis, mas estudos recentes mostram que uma má alimentação mata mais do que o uso de cigarros.

Essa visão de que o consumo de frutas, legumes e vegetais é fit, dieta ou alimentação de playboy está nos cegando e mantendo a quebrada morrendo pela boca, se alimentar de forma consciente não é e não deve ser uma parada exclusiva de uma elitizinha minúscula, porque como mostrou um estudo publicado no periódico científico da The Lancet, uma em cada cinco mortes ocorridas em 2017 estava associada ao consumo excessivo de sal, açúcar ou carne, ou por carência de cereais integrais e frutas. E sabemos quem mais sofre com isso. Negar esse problema é ser complacente com o nutricídio nas periferias e favelas.


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  • Vegano Periférico

O veganismo é um movimento pelo fim da exploração animal, no qual várias vertentes atuam de diversas formas, porém todas com a mesma finalidade: libertar os animais de uma exploração cruel e deliberada, que aprisiona, tortura e limita a vida de bilhões de animais ano após ano. O historiador e professor israelense, Yuval Noah Harari, uma vez comentou: ''O destino de animais de criação industrial é uma das questões éticas mais urgentes do nosso tempo. Dezenas de bilhões de seres sencientes, cada um com emoções e sensações complexas, vivem e morrem em uma linha de produção.’’


O veganismo é um movimento político de extrema importância, sobretudo nos tempos atuais. Pela livre tradução da “The Vegan Society” (Sociedade Vegana), grupo que criou o termo “Veganismo” em 1944 no Reino Unido: ‘’o veganismo é uma filosofia e estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais na alimentação, vestuário e qualquer outra finalidade e, por extensão, que promova o desenvolvimento e uso de alternativas livres de origem animal para benefício de humanos, animais e meio ambiente.”


No Brasil existem algumas vertentes, e uma das vertentes desse movimento é o veganismo popular, do qual fazemos parte e propagamos. Essa vertente tem como princípio o fim da exploração animal através de uma luta inclusiva e acessível à toda população, tendo como pautas o fim da fome, a soberania alimentar e uma mudança sistêmica e coletiva, alinhada com a busca por justiça social e consciência ambiental. Além de abordar de forma ampla a questão da alimentação.


Nós tendemos a abordar a questão da alimentação de forma mais frequente e ampla, porque entendemos que, além de se tratar da principal forma de exploração animal e a mais presente no dia a dia, é a mudança mais difícil para quem quer aderir ao movimento, além de ser, também, extremamente prejudicial uma alimentação baseada em pedaços de animais e seus derivados, industrializados e ultraprocessados. Damos uma relevância maior para a alimentação, pois envolve uma série de questões, como paladar viciado, cultura, hábitos arraigados, a exploração animal vista como ‘’meio de sobrevivência’’ de forma totalmente desconectada da realidade, a questão da ascensão social relacionada com o consumo de animais, a questão com a comida afetiva, as doenças relacionadas à uma má alimentação, a indústria alimentícia, o agronegócio, entre outras questões.


É sabido que o formato da nossa alimentação está totalmente atrelado com a nossa cultura e educação, sobretudo quando o assunto é consumir animais. Crescemos, principalmente nós da cidade, muito distante dos animais ditos de criação, não temos contato, não temos ligação, apenas aprendemos muito cedo a consumi-los em pedaços, em diversos formatos, etc., e nunca questionamos os impactos desse consumo, apenas aceitamos muito cedo e nos acostumamos. Assim como aprendemos a consumir todo tipo de alimento que prejudica a nossa saúde - desde os industrializados até os embutidos e ultraprocessados. Desde pequeno aprendemos a comer carnes, salsicha, linguiça, calabresa, ovos e tomar leite sem pensar sobre isso, e obviamente aprendemos a enxergar o mundo e a alimentação através desse prisma. Não temos o hábito e não questionamos esse consumo, não aprendemos a questionar qual o impacto e o que causa no nosso corpo ao consumirmos animais ou derivados, nem mesmo o impacto na vida desses animais que são aprisionados, explorados e mortos diariamente dentro da indústria.


A questão cultural é a principal responsável por esse consumo irrefletido e inconsciente. A publicidade, portanto, se beneficia dessa tradição especista (sentimento de se sentir superior a outra espécie) e induz frequentemente o nosso consumo. Vivemos numa sociedade onde aprendemos a ignorar a existência dos animais e nos adaptar ao consumo de alimentos viciantes e altamente calóricos, sendo frequentemente condicionados através de propagandas bem feitas por marqueteiros bem pagos. O resultado é que além de estarmos destruindo toda fauna e flora com a nossa alimentação, estamos destruindo completamente a nossa saúde, e com isso gerando bilhões para um punhado de bilionários. E não aprendemos em lugar nenhum sobre o quão prejudicial é para a nossa saúde o consumo de animais, de alimentos industrializados e ultraprocessados. Há uma série de questões por trás da nossa alimentação que desconhecemos e que não somos estimulados a questionar e ir atrás, pois isso não é de interesse de quem domina os meios e se beneficia disso.


Vamos abordar, de forma específica, um pseudo alimento muito simbólico e que carrega em si várias questões, ‘’a salsicha’’. Esse embutido que está presente na mesa da maior parte da população, come-se ao molho com batata, frita com sal e é sempre o coringa da ''mistura’’ na mesa do pobre, também é o recheio mais famoso do ‘’hot dog’’ e lanches de festa. Nós mesmos éramos viciados e comíamos muito, faltava carne, mas salsicha dificilmente. Entretanto, esse produto tão presente na nossa alimentação é considerado, pela Organização Mundial da Saúde, (OMS), como um alimento altamente cancerígeno. As carnes processadas, de modo geral, são classificadas, há anos, como cancerígenas. Para os quais já há evidência suficiente de ligação com o câncer, principalmente quando se trata do câncer colorretal. Sem contar que embutidos e carnes vermelhas estão intrinsecamente ligados às principais doenças cardiovasculares, responsáveis pela maior parte de morte no mundo. Na mesma classificação estão tabaco, amianto e fumaça de óleo diesel. O relatório foi feito pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), da OMS. A salsicha é simbólica porque ela é feita com os restos de animais que sobram na indústria e é misturada com produtos químicos, sódio e corantes, e vendida por uma merreca (muitas vezes), para que o povo pobre que vive numa situação de insegurança alimentar e fome (por conta da tremenda desigualdade social e políticas elitistas) possa ter acesso, e comer o que sobra. Dessa maneira a indústria não perde um centavo, nem mesmo com os restos de animais, como ossos, sangue, gordura, intestinos e peles. Ou seja, um dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros, é também um dos mais perigosos para a saúde. Esse alimento carrega consigo a desigualdade, a má nutrição e o desrespeito com a vida animal. Mas a salsicha é só a ponta do iceberg quando o assunto é o lance de alimentos de origem animal que estão acabando com a saúde da população. Mas é muito complicado falar sobre alimentação sem nada de origem animal na quebrada.


Nós mesmos não nascemos veganos, nem vegetarianos, isso pra gente era totalmente distante da nossa realidade, tínhamos até um certo tipo de preconceito. Até ouvimos falar sobre, mas sabe quando aquilo é distante? Pois era muito pra gente. E tem todo o lance de ascensão social, da comemoração com o churrasco, de sempre ter alguma coisa de animal no prato, é profundo, a parada é muito enraizada. E dentro desse contexto, crescemos comendo arroz, feijão, pedaços de animais mortos, ovos, muito embutido e tomando leite com achocolatado. Além de contribuirmos com a exploração animal, estávamos acabando com a nossa saúde.


Mas refletir sobre isso parecia não fazer parte do nosso dia a dia. Mesmo sofrendo muito com a saúde, ambos com dores constantes, imunidade baixa, gastrite e dor de cabeça, não pensávamos sobre o comer, apenas comíamos. E a alimentação é extremamente importante, necessária para nutrir o nosso corpo, nos manter com energia, fortalecer a nossa imunidade e nos proteger de uma série de doenças, mas não somos ensinados e educados alimentarmente falando. Aliás, quem nos educa são os responsáveis pela indústria agroquímica, os responsáveis pelo agronegócio e por um Estado que nunca esteve interessado realmente em seu povo e que não se importa de fato com a saúde da população. Como olhar para os dados, para o nutricídio (termo cunhado pelo Dr. Llaila O’ Afrika) nas periferias e ignorar tudo isso. Sabemos que é complexo falar sobre o consumo de animais na quebrada e uma alimentação mais responsável e o quão complicado é tentar compartilhar esse conhecimento entre os nossos e nossas, mas é super necessário começarmos a discorrer de forma consciente sobre o assunto, tanto da perspectiva individual quanto sistêmica e coletiva. Na mente da população o que predomina é que consumir animais é sinônimo de riqueza, de ascensão social, sinônimo de ter comida na mesa, é o que dá sustância, sem contar que a população está viciada e dependente do sabor dos pedaços de animais, do ovo, do leite e de todos os pseudos alimentos industrializados.


Por isso, sempre afirmamos que comer é um ato extremamente político, se alimentar de forma adequada, questionar os padrões alimentares e o formato alimentar que temos atualmente. E esse papo não tem nada a ver com dieta fitness para corpos perfeitos ou secar a barriga, tem a ver com saúde pública, com qualidade nutricional para o povo e uma forma de se nutrir que não nos mate e que esteja alinhada com o respeito aos animais e com a finitude do meio ambiente. Nas periferias do Brasil muita gente está morrendo de fome e quando come estão morrendo pela má qualidade do que ingere. O que predomina na quebrada, infelizmente, são alimentos ultraprocessados, industrializados, carnes, derivados de animais e embutidos. Por isso, é necessário refletirmos para não sermos engolidos enquanto engolimos. Olhando ao nosso redor, o leitor pode confirmar isso com sua experiência pessoal também. É impressionante como toda semana algumas pessoas à nossa volta são diagnosticadas com alguma doença relacionada à péssima alimentação. Sabemos que muitas doenças têm origem genética e são multifatoriais e de fato são inevitáveis, mas estudos recentes mostram que uma má alimentação mata mais do que o uso de cigarros, sobretudo uma alimentação baseada em animais e derivados. Não é novidade que as doenças mais comuns entre o povo são relacionadas com estilo de vida, principalmente com os alimentos que ingerimos. Segundo a ONU, 70% das doenças modernas são de origem animal. Como exemplo, as doenças cardiovasculares estão entre as mortes mais comuns no mundo, e sabemos que o consumo de gordura animal está entre uma das principais causas do entupimento das artérias. Diabetes do tipo 2, está completamente atrelada à alimentação, o povo está morrendo pelo que come, quando consegue comer, principalmente a população negra e periférica. O nosso paladar está viciado, não sente mais o sabor dos alimentos naturais e deseja cada vez mais química, gordura, açúcar e excesso de sal. Mas sabemos que a maioria gostaria de ter uma saúde melhor e não contribuir com a morte de animais inocentes.


Tendo isso em vista, é necessário colocarmos um esforço enorme para quebrar essa ideia de que o consumo de carne, leite, queijos é status ou ascensão social, porque isso faz parte de uma publicidade muito bem arquitetada e não uma realidade por si só. Podem reparar, onde vocês tiverem, é insuportável a quantidade de publicidade espalhada por aí, na TV, no meio de um vídeo do YouTube, em aplicativos, Instagram, TikTok, Facebook, Twitter, etc. Difícil escapar, toda hora colocam na nossa cara que devemos consumir carne, queijos, ovos, salsicha, calabresa, presunto, industrializados, enlatados, etc. Somos seres extremamente influenciáveis e com certeza vamos acreditar profundamente que consumir isso é normal. E isso gera um retorno financeiro enorme para grandes empresas e gera um sofrimento terrível para a população (principalmente pobre e periférica) e para os animais que são brutalmente explorados dentro dessas indústrias, sim, existe uma indústria bilionária lucrando enquanto nós estamos adoecendo pelo que comemos, cada garfada é uma chance a menos de viver mais ou ser hospitalizado com alguma doença evitável e ainda correndo o risco de ficar largado no hospital público.


Nós, que nascemos e crescemos na quebrada, precisamos parar de achar que frutas, saladas, legumes e vegetais são comidas ruins, fitness ou comida de gente rica. E mais, o consumo de frutas, verduras e legumes é muito mais saudável e barato do que o consumo de origem animal. Hoje, propagar tal consumo é de certa forma um retrocesso, tanto na questão da exploração animal, destruição ecológica quanto aos problemas de saúde ligados ao consumo desenfreado de origem animal. Precisamos urgentemente repensar nossa alimentação e como estamos nos nutrindo. Refletir sobre esse hábito é fortalecer a quebrada e mostrar que nós podemos fazer escolhas melhores, independente da nossa história, da nossa cultura ou do nosso CEP.


Agora, falando de uma perspectiva individual sobre o impacto da alimentação na saúde, nós trazemos a nossa experiência. Somos veganos há quase 6 anos, não nos alimentamos de absolutamente nada de origem animal e aumentamos muito a nossa variedade de alimentos da terra, como vegetais, legumes e frutas, até porque, já é senso comum que proteínas, ferro e cálcio podem ser encontrados em diversos alimentos e que os produtos de origem animal não são os únicos que oferecem isso. E isso fez um bem gigantesco para a nossa saúde e na melhoria da qualidade de vida, e gastamos muito pouco para manter essa alimentação. Não fazíamos ideia de que a economia seria tão grande, atualmente economizamos 50% no mercado para nos alimentarmos muito melhor. Hoje, não temos mais as queixas que tínhamos antes, a imunidade baixa hoje já não é mais uma realidade, nossos últimos exames estão em perfeito estado. Sem contar que saímos do automático. Hoje, a cozinha é colorida, a gente faz diversas coisas, aprendemos a fazer uma pá de comida que antes achávamos que só rico e celebridade podia fazer, aprendemos que comer comida de verdade é muito mais barato do que consumir comida de origem animal, industrializados e ultraprocessados. Pra gente tudo é uma questão de informação, a quebrada tá cheia de gente inteligente, a informação só precisa chegar de forma acessível, com representatividade, de forma inclusiva e com humildade, principalmente sendo passada de cria pra cria.

Quando nos tornamos veganos, nossa família e alguns amigos esboçaram várias críticas e julgamentos. Ficaram preocupados com a questão da saúde (quando você aumenta o consumo de vegetais e diminui carnes, laticínios e industrializados gera espanto), muitos zoavam, outros demonstravam um certo interesse, apenas por curiosidade. Com o passar do tempo, tanto nossa família, quanto os camaradas começaram a perceber que a nossa escolha tinha embasamento e coerência, não era uma simples fase ou só mais uma modinha passageira. Eles começaram a se dar conta da importância da causa, da importância de uma alimentação menos nociva, mais versátil, diversa e nutritiva, mesmo não demonstrando tanto interesse. Eles já se preocupavam um pouco mais, conversavam de forma mais séria, as piadinhas infantis foram ficando de lado, e hoje existe um grande respeito por parte da maioria. Mas tudo isso só foi possível porque nós já estivemos na mesma posição e sabemos o quanto somos ignorantizados e desinformados, até que começaram a enxergar o quão sem sentido estava sendo a atitude deles. O preconceito é apenas o reflexo da ignorância. E por não termos contato com essas informações de forma fácil e acessível desenvolvemos um preconceito cego perante questões muito importantes e relevantes.


Acreditamos que é mais do que necessário ter ação prática, tanto individual quanto coletiva. Refletir sobre nossos hábitos, o apego emocional ao alimento químico industrializado e principalmente de origem animal. Entre as formas de ação prática, uma delas é o boicote aos grandes produtores da indústria agroquímica e apoiar os pequenos produtores de alimentos de verdade, o apoio massivo à agricultura familiar. E além de tudo, ser o exemplo no nosso meio, no cotidiano é a forma mais efetiva de levar nossas ideias. Lutar por uma mudança estrutural e institucional também faz parte da luta, pois dentro do sistema capitalista é difícil progredir com pautas realmente progressistas. É possível deixar os animais livres e ainda por cima ter uma alimentação extremamente rica e saudável. Como sempre propagamos a informação e a educação são nossas principais armas e é nisso que acreditamos.


Ter se tornado vegano, mudou completamente a forma como enxergamos o mundo e a cada dia que passa conseguimos perceber o quanto a alimentação é um ato extremamente político e o quanto o veganismo tem um caráter revolucionário. E é justamente por isso que essa causa precisa se popularizar. Não importa onde você mora, importa como você pensa.


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  • Vegano Periférico

É muito comum, quase que diariamente as pessoas me abordam com a dúvida: é muito difícil ser vegano aí no Nordeste? Geralmente essa pergunta vem de uma mente muito condicionada em industrializados e substitutos iguais a carne, leite, queijos e ovos que são vendidos a preços absurdos em redes de supermercados Brasil afora, geralmente produzidos por empresas responsáveis pela exploração animal.


Mas, nóis mesmo aqui não consumimos e nunca sentimos vontade alguma de comprar esses industrializados com selinho "vígan", até porque não temos condições financeiras pra bancar isso, e o foco é alimentação verdadeira e barata, sem dependência em megaempresas que visam o lucro acima de qualquer coisa.





Quando falamos que é mais barato ser vegano, estamos falando de comida mesmo, grãos, cereais, frutas, legumes, vegetais, entre diversos outros alimentos que são a base da nossa alimentação.

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